Guia do Veterinário: Petiscos Saudáveis que Você Tem na Geladeira
Guia do Veterinário: Petiscos Saudáveis que Você Tem na Geladeira

Guia do Veterinário: Petiscos Saudáveis que Você Tem na Geladeira

Guia do Veterinário: Petiscos Saudáveis que Você Tem na Geladeira

Você provavelmente já conhece a cena. Você caminha até a cozinha, abre a porta da geladeira em busca de um lanche rápido e, quase magicamente, ouve o som das patinhas correndo pelo corredor. Em segundos, um par de olhos pidões está fixo em você, acompanhando cada movimento da sua mão entre as prateleiras. Como veterinário, vejo essa interação diariamente nas histórias que escuto no consultório. A vontade de compartilhar nosso alimento é uma forma primitiva de demonstrar afeto e fortalecer o vínculo com nossos animais. No entanto, esse gesto de amor pode rapidamente se transformar em um problema de saúde se não soubermos exatamente o que estamos oferecendo.

A boa notícia é que a sua geladeira é, de fato, uma mina de ouro de opções nutritivas e seguras que podem substituir os petiscos industrializados ultraprocessados. Muitos dos alimentos que nós, humanos, consumimos para manter uma dieta equilibrada também trazem benefícios fantásticos para a fisiologia dos cães e gatos. O segredo não está apenas em saber qual alimento escolher, mas em entender como prepará-lo e oferecê-lo de forma que agregue valor nutricional sem desbalancear a dieta principal do seu animal.

Neste guia completo, vamos explorar juntos as prateleiras da sua cozinha. Vou te ensinar a olhar para legumes, frutas e proteínas com os olhos de um profissional de saúde animal. Vamos transformar ingredientes comuns em ferramentas de enriquecimento ambiental, saúde dental e controle de peso. Prepare-se para descobrir como aquele legume esquecido na gaveta pode ser o melhor presente que você dará ao seu pet hoje, garantindo longevidade e qualidade de vida através da nutrição funcional e acessível.

O Tesouro Escondido na Gaveta de Legumes

Cenoura: A Escova de Dentes Natural e Crocante

A cenoura é, sem dúvida, um dos vegetais mais versáteis e benéficos que você pode oferecer ao seu cão. Do ponto de vista nutricional, ela é uma excelente fonte de beta-caroteno, que o organismo do animal converte em Vitamina A, essencial para a saúde ocular e para a manutenção de uma pelagem brilhante e pele saudável. Além disso, a cenoura possui um teor calórico extremamente baixo, o que a torna o petisco ideal para animais que estão em processo de emagrecimento ou que têm um apetite voraz e pedem comida o dia todo. Você pode oferecê-la sem culpa, sabendo que está adicionando fibras de qualidade à dieta.

O aspecto mais interessante da cenoura, no entanto, é a sua textura. Quando oferecida crua e em pedaços adequados ao tamanho do animal, ela atua como um abrasivo mecânico suave. Enquanto o cão rói a cenoura, o atrito ajuda a remover o acúmulo de placa bacteriana superficial nos dentes, funcionando como uma espécie de “escova de dentes comestível”. No meu consultório, recomendo frequentemente cenouras inteiras ou grandes pedaços gelados para filhotes que estão na fase de troca de dentição. O frio alivia a coceira na gengiva, e a dureza do legume satisfaz a necessidade inata de roer, salvando os móveis da sua casa.

Para cães idosos ou com dentição comprometida, a cenoura ainda é uma opção válida, mas a forma de preparo deve mudar. Nesses casos, cozinhar levemente o legume no vapor preserva grande parte dos nutrientes e torna a textura macia o suficiente para ser mastigada sem esforço ou risco de fratura dental. Lembre-se sempre de lavar bem e, se possível, optar por versões orgânicas, mas mesmo a cenoura convencional descascada é uma alternativa infinitamente superior a biscoitos cheios de corantes e conservantes artificiais.

Abobrinha: O Coringa para o Controle de Peso

A abobrinha é frequentemente subestimada pelos tutores, mas é um verdadeiro “superalimento” quando o assunto é controle de saciedade. Composta majoritariamente por água e fibras, a abobrinha adiciona volume ao estômago do animal sem adicionar uma carga calórica significativa. Isso a torna uma aliada estratégica para cães obesos que estão em dietas restritivas. Muitos tutores relatam que seus cães parecem sempre famintos durante dietas de emagrecimento; adicionar cubos de abobrinha levemente cozida à ração ou oferecê-la como petisco entre refeições ajuda a manter o animal saciado por mais tempo.

Além do benefício do peso, a abobrinha é rica em vitaminas do complexo B e minerais como potássio e manganês. É importante notar que alguns cães podem não gostar da textura da abobrinha crua, que pode ser um pouco esponjosa e amarga dependendo da variedade. A melhor forma de torná-la atrativa é passá-la rapidamente no vapor ou na água fervente, sem adicionar sal ou óleos. Esse leve cozimento realça o sabor adocicado natural do legume e melhora a digestibilidade, evitando a formação excessiva de gases, que pode ocorrer em animais com o trato gastrointestinal mais sensível.

Se você tem um cão que é seletivo para comer, a abobrinha também pode ser ralada e misturada à refeição principal. Essa técnica não serve apenas como petisco, mas como um enriquecedor da dieta. No entanto, como petisco avulso, cortes em rodelas ou cubos funcionam muito bem. Sempre observe como o seu animal reage nas primeiras vezes que consome um novo vegetal. Embora a abobrinha seja segura, cada organismo é único, e a introdução de muitas fibras de uma só vez pode soltar o intestino se o animal não estiver acostumado.

Chuchu: Hidratação Pura em Pedaços Sólidos

O chuchu carrega injustamente a fama de ser um alimento “sem graça”, mas na medicina veterinária, ele é altamente valorizado justamente por sua neutralidade e alto teor de água. Para cães que bebem pouca água ou para aqueles que sofrem de problemas renais e precisam de hidratação extra sem sobrecarga de fósforo ou proteínas, o chuchu é o petisco perfeito. Ele funciona praticamente como “água mastigável”, ajudando na filtração renal e na manutenção da hidratação sistêmica, especialmente em dias mais quentes.

A digestibilidade do chuchu é excelente. Raramente atendo casos de intolerância gastrointestinal causados por este legume. Ele é hipoalergênico e não interfere no equilíbrio gástrico, sendo seguro até mesmo para animais que estão se recuperando de episódios de gastrite ou diarreia, momentos em que a dieta precisa ser extremamente leve. Diferente de outros vegetais que podem ser duros ou fibrosos demais, o chuchu cozido tem uma textura macia que agrada a maioria dos paladares caninos, que muitas vezes preferem sabores mais suaves e menos ácidos.

Para preparar, o ideal é descascar, retirar o “coração” (a semente branca no centro, que pode ser um pouco dura) e cozinhar apenas em água. Você pode manter um pote com cubinhos de chuchu cozido na geladeira por até três dias. Eles podem ser oferecidos frios, o que aumenta a palatabilidade em dias de calor. É uma forma inteligente de recompensar seu cão várias vezes ao dia durante sessões de adestramento, por exemplo, sem se preocupar em ultrapassar o limite de calorias diárias, já que o chuchu é energeticamente muito leve.

As Frutas Refrescantes da Prateleira Superior

Maçã: O Clássico Crocante (Sem Sementes)

A maçã é um dos petiscos naturais mais populares e acessíveis, e sua popularidade é merecida. Ela é rica em fibras solúveis, como a pectina, que ajudam a regular o trânsito intestinal e podem auxiliar na redução dos níveis de colesterol no sangue. Além disso, a maçã contém antioxidantes poderosos, como a quercetina, que auxiliam no combate aos radicais livres e fortalecem o sistema imunológico, algo vital especialmente para cães mais velhos. O sabor adocicado costuma ser um sucesso absoluto entre os cães, tornando a maçã uma recompensa de alto valor para treinos e reforço positivo.

No entanto, a oferta de maçã exige um cuidado crucial que todo tutor deve saber: a remoção completa das sementes e do miolo. As sementes de maçã contêm cianeto, uma substância tóxica que, se consumida em grandes quantidades ao longo do tempo, pode causar problemas sérios de saúde. Embora algumas sementes acidentais dificilmente causem uma intoxicação aguda em um cão de grande porte, o acúmulo e o risco não valem a pena. Portanto, a regra de ouro é: corte a maçã em fatias, retire todo o miolo e as sementes, e ofereça com ou sem casca, dependendo da preferência do seu pet. A casca concentra a maior parte das vitaminas, então mantê-la é vantajoso se o cão aceitar bem.

Outro ponto de atenção é a moderação devido ao teor de açúcar (frutose). Embora seja um açúcar natural, o excesso pode contribuir para o ganho de peso e, em casos raros, desequilíbrios intestinais fermentativos. Uma ou duas fatias são suficientes para um cão de porte médio. Você pode variar a apresentação oferecendo a maçã desidratada no forno (chips de maçã), que se torna um petisco crocante e fácil de transportar, mantendo os benefícios nutricionais sem a sujeira do suco da fruta fresca.

Melancia: O Sorvete da Natureza para Dias Quentes

Quando o verão chega e as temperaturas sobem, a melancia se torna a rainha dos petiscos saudáveis. Composta por mais de 90% de água, ela é excelente para prevenir a desidratação e o golpe de calor, condições perigosas para cães, que não suam como nós. A melancia também é fonte de licopeno e vitaminas A, B6 e C. A textura suculenta e doce é altamente atrativa, fazendo com que até cães com pouco apetite se interessem por esse lanche. É comum ver cães se divertindo ao morder pedaços da fruta, transformando a alimentação em um momento lúdico.

A preparação da melancia exige a retirada da casca verde e rígida, que é indigesta e pode causar obstruções intestinais ou desconforto gástrico severo se ingerida. As sementes também devem ser removidas. Embora não sejam tóxicas como as da maçã, elas podem causar bloqueios intestinais em cães de porte muito pequeno (como Chihuahuas ou Yorkshires) se ingeridas em grande quantidade. O ideal é oferecer a polpa vermelha cortada em cubos. Se você quiser elevar o nível, congele os cubos de melancia sem sementes e ofereça como “pedras de gelo” saborizadas.

O controle da quantidade é importante, pois a melancia tem um índice glicêmico considerável. O excesso pode causar fezes amolecidas devido à grande quantidade de água e açúcar. Para um cão de porte grande, duas ou três fatias grossas (sem casca) são um banquete refrescante. Para cães pequenos, alguns cubinhos bastam. Lembre-se de que a melancia é diurética; portanto, espere que seu cão precise urinar com mais frequência após consumi-la, o que é um sinal de que a hidratação está funcionando.

Banana: Energia Rápida com Moderação

A banana é o “barrinha de cereal” da natureza para os cães. Rica em potássio, magnésio, vitaminas B6 e C, e fibras, ela é uma excelente fonte de energia rápida. É um petisco fantástico para oferecer após uma longa caminhada ou uma sessão intensa de brincadeiras no parque, ajudando na recuperação muscular e na reposição de eletrólitos. A textura macia da banana a torna ideal para cães idosos que já perderam dentes ou têm dificuldade de mastigação, pois pode ser facilmente amassada ou engolida em pedaços pequenos sem risco de engasgo.

Entretanto, a banana é uma das frutas com maior teor de carboidratos e açúcares. Por isso, ela deve ser tratada estritamente como um petisco ocasional, e não como parte regular da dieta diária, especialmente para cães diabéticos ou com sobrepeso. O excesso de banana pode levar à constipação em alguns cães ou, paradoxalmente, a diarreia em outros, dependendo da sensibilidade individual à quantidade de fibra e açúcar. A casca da banana não é tóxica, mas é muito difícil de digerir e pode causar bloqueios, portanto, deve ser sempre removida.

Uma dica prática que dou aos meus pacientes é usar a banana como veículo para administrar medicamentos. Devido à sua textura moldável e sabor forte, é fácil esconder um comprimido dentro de um pedaço de banana, tornando a experiência de tomar remédio muito menos estressante para você e para o animal. Você também pode congelar fatias de banana para criar uma textura diferente, semelhante a um sorvete cremoso, que os cães adoram lamber, proporcionando enriquecimento e sabor ao mesmo tempo.

Proteínas Que Você Provavelmente Já Tem

Ovo Cozido: A Superproteína Compacta

O ovo é considerado por nutricionistas veterinários como uma das proteínas de maior valor biológico disponíveis. Isso significa que o organismo do cão consegue aproveitar quase 100% dos aminoácidos presentes nele. O ovo é rico em vitaminas, ácidos graxos e minerais como o selênio. A gema, em particular, é uma fonte excelente de biotina, fundamental para a saúde da pele e do pelo. Se o seu cão está com o pelo opaco ou quebradiço, a introdução de ovos na dieta (como petisco ou complemento) pode fazer uma diferença visível em poucas semanas.

Existe um debate frequente sobre oferecer ovo cru ou cozido. Como profissional de saúde, minha recomendação é sempre pelo cozido. O ovo cru apresenta riscos de contaminação por Salmonella, que pode afetar tanto o animal quanto a família humana que manuseia o alimento e as fezes do pet. Além disso, a clara do ovo cru contém avidina, uma substância que interfere na absorção da biotina, anulando um dos principais benefícios do alimento. Cozinhar o ovo elimina o risco de bactérias e inativa a avidina, tornando-o um petisco seguro e nutritivo.

Você pode oferecer o ovo cozido inteiro (para cães grandes), cortado em pedaços ou amassado. Não há necessidade de adicionar sal ou qualquer tempero. A própria casca do ovo, se for bem lavada, seca e triturada até virar um pó fino, é uma excelente fonte de cálcio natural, mas deve ser usada com cautela e orientação para não desbalancear os minerais da dieta. Como petisco, o ovo cozido é prático: você pode cozinhar vários no início da semana e mantê-los na geladeira, oferecendo pedaços como recompensas de alto valor nutricional.

Peito de Frango: O Favorito da Dieta Branda

O peito de frango cozido é, possivelmente, o petisco mais universalmente aceito pelos cães. É uma proteína magra, de fácil digestão e altamente palatável. Quando falo em ter “na geladeira”, refiro-me àquela sobra de frango do almoço, desde que tenha sido preparada de forma adequada para o cão, ou seja, sem cebola, alho ou excesso de sal. Se você costuma grelhar frango para sua família, separe um filé antes de temperar, cozinhe-o apenas na água ou na chapa e guarde em um pote separado para o seu pet.

Este alimento é tão seguro que é a base das “dietas de exclusão” para descobrir alergias alimentares e das dietas para animais convalescentes. Como petisco, o frango desfiado funciona maravilhosamente bem para treinos que exigem muitas repetições. Como é uma proteína magra, você pode dar vários pequenos pedacinhos sem estourar a cota de gordura do dia. Isso mantém o cão motivado e focado em você, esperando pelo próximo pedaço delicioso. É muito mais saudável do que os bifinhos industrializados, que muitas vezes contêm mais amido e glicerina do que carne real.

Tenha cuidado absoluto com os ossos. Ossos de frango cozidos jamais devem ser oferecidos. O processo de cozimento altera a estrutura do colágeno do osso, tornando-o quebradiço. Ao ser mastigado, ele se estilhaça em pontas agudas que podem perfurar o esôfago, estômago ou intestino, levando a emergências cirúrgicas graves. Portanto, o petisco aqui é apenas a carne macia, desossada e sem pele (para evitar excesso de gordura e pancreatite).

Iogurte Natural: O Probiótico da Geladeira

O iogurte natural é um excelente complemento alimentar, rico em cálcio e proteínas. Mais importante ainda, ele contém culturas vivas de bactérias benéficas (probióticos) que podem auxiliar na saúde intestinal do seu cão, melhorando a digestão e a absorção de nutrientes. Muitos cães adoram o sabor ácido e a textura cremosa do iogurte. É uma opção refrescante que pode ser servida pura ou misturada com pedaços de frutas permitidas, criando um “parfait” canino saudável.

Para ser seguro, o iogurte deve ser estritamente natural e integral ou desnatado. Nunca ofereça iogurtes com sabores (morango, coco, etc.), pois eles contêm açúcares adicionados, corantes e, pior ainda, podem conter xilitol, um adoçante artificial que é extremamente tóxico e potencialmente fatal para cães, causando hipoglicemia severa e falência hepática. Leia sempre o rótulo: os ingredientes devem ser apenas leite e fermento lácteo. Nada mais.

É importante lembrar que alguns cães, assim como humanos, podem ser intolerantes à lactose. Embora o iogurte tenha menos lactose que o leite puro devido à fermentação, ainda pode causar gases ou fezes moles em animais sensíveis. Comece oferecendo uma colher de chá e observe. Se não houver reações adversas, você pode aumentar gradualmente a quantidade. O iogurte também é fantástico para rechear brinquedos e congelar, criando um passatempo de longa duração que acalma e entretém o animal.

A Arte de Servir: Transformando Alimentos em Enriquecimento

Cubos de Gelo Saborizados: O Verão no Pote

Uma das formas mais simples e geniais de usar os itens da sua geladeira é criando cubos de gelo saborizados. Em vez de dar apenas água congelada, você pode usar a água do cozimento do peito de frango (sem tempero) ou da cenoura. Esse líquido, que muitas vezes jogamos fora, é rico em nutrientes e sabor. Congele em forminhas de gelo e você terá dezenas de mini-petiscos prontos a custo zero.

Outra opção é bater frutas permitidas, como melancia ou melão, no liquidificador com um pouco de água ou água de coco e congelar a mistura. Esses cubos funcionam como picolés nutritivos. Para o cão, lamber o gelo é uma atividade calmante que ajuda a baixar a temperatura corporal e reduz a ansiedade. É um recurso valioso para dias em que o cão precisa ficar sozinho em casa ou quando está muito agitado.

Tenha apenas o cuidado de observar se o seu cão tenta engolir a pedra de gelo inteira. Se ele for muito voraz, o gelo pode causar engasgos. Nesses casos, opte por formas de gelo maiores, que obriguem o cão a lamber em vez de engolir, ou triture o gelo antes de oferecer, criando uma espécie de “raspadinha” refrescante.

O Desafio do Brinquedo Recheado e Congelado

O uso de brinquedos recheáveis (como os de borracha resistente com um buraco no meio) é uma das melhores estratégias comportamentais que recomendamos. Em vez de dar a comida de graça no pote, você coloca o alimento dentro do brinquedo. Isso estimula o instinto de caça e forrageamento, gastando energia mental. Os alimentos úmidos que discutimos, como iogurte natural, purê de abóbora ou banana amassada, são a “cola” perfeita para esses brinquedos.

Você pode misturar pedaços de frango ou cenoura nessa pasta, rechear o brinquedo e levá-lo ao congelador por algumas horas. O resultado é um “picolé recheado” que vai manter seu cão ocupado por 20 a 40 minutos. O esforço para lamber todo o conteúdo congela o foco do animal, reduzindo comportamentos destrutivos como roer móveis ou latir excessivamente.

Essa técnica é especialmente útil para cães com ansiedade de separação. Se você oferecer esse super petisco saudável toda vez que sair de casa, o cão começa a associar a sua saída a algo positivo e delicioso, diminuindo o estresse do momento. Use a criatividade com os ingredientes da geladeira para criar receitas novas e manter o interesse do animal sempre vivo.

A Regra dos 10% e o Balanço Calórico

Ao introduzir todos esses petiscos maravilhosos, é fácil cair na armadilha do excesso. Como veterinário, vejo a obesidade como uma das maiores epidemias atuais entre os pets. Um cão gordo não é um cão “fofinho”, é um cão inflamado, com maior risco de problemas articulares, cardíacos e metabólicos. Por isso, aplicamos a Regra dos 10%.

Esta regra dita que todos os petiscos oferecidos no dia — sejam frutas, legumes ou proteínas — não devem ultrapassar 10% das calorias totais diárias que o cão necessita. Os outros 90% devem vir de uma ração completa e balanceada ou de uma alimentação natural prescrita por um zootecnista ou veterinário nutrólogo. Petiscos não são balanceados; eles são complementos. Se você encher seu cão de banana e frango, ele pode deixar de comer a ração e, a longo prazo, ter deficiências nutricionais.

Para facilitar, pense visualmente: o volume de extras do dia não deve ser maior que o tamanho da cabeça de um gato (para cães grandes) ou de uma noz (para cães pequenos). Se você exagerou nos petiscos em um dia de treino, reduza um pouco a quantidade de ração do jantar para compensar. O equilíbrio é a chave para aproveitar os benefícios desses alimentos sem causar danos colaterais ao peso do seu amigo.

O Perigo Oculto: O Que Jamais Deve Sair da Geladeira Para o Pote

Uvas e Passas: O Inimigo Silencioso dos Rins

Enquanto muitas frutas são saudáveis, as uvas e suas variantes secas (uvas-passas) representam um perigo gravíssimo e ainda misterioso. A ciência veterinária ainda não identificou com exatidão qual substância na uva causa a toxicidade, mas sabemos o resultado: falência renal aguda. E o mais assustador é que não há dose segura conhecida.

Já atendi casos de cães que comeram um cacho inteiro e não tiveram nada, e outros que comeram três uvas e entraram em insuficiência renal grave. Devido a essa imprevisibilidade, o risco é inaceitável. Uvas devem ser mantidas longe do alcance, e todos na casa devem saber que elas são estritamente proibidas. Se o seu cão ingerir uvas acidentalmente, não espere sintomas aparecerem; corra para o veterinário imediatamente para indução de vômito e protocolo de desintoxicação.

Os sintomas de intoxicação por uva incluem vômitos, letargia e parada na produção de urina. Prevenir é a única opção segura. Certifique-se de que saladas de frutas ou bolos que contenham passas não fiquem em mesas baixas onde o cão possa “roubar” um pedaço.

Cebola e Alho: O Tempero que Intoxica as Células

A cebola e o alho são pilares da nossa culinária, presentes em quase todos os pratos salgados que guardamos na geladeira. Para cães e gatos, no entanto, eles contêm compostos chamados tiossulfatos, que causam danos oxidativos aos glóbulos vermelhos do sangue. Basicamente, esses alimentos rompem as células sanguíneas, levando a uma condição chamada anemia hemolítica.

Os sintomas podem demorar dias para aparecer e incluem gengivas pálidas, fraqueza, respiração ofegante e urina de cor escura (avermelhada ou marrom). É comum o tutor oferecer um restinho de carne de panela ou arroz temperado achando que está agradando, sem saber que está envenenando o animal lentamente. O efeito é cumulativo, ou seja, pequenas doses frequentes podem ser tão perigosas quanto uma dose grande única.

Por isso, a regra é clara: petiscos da geladeira devem ser os ingredientes crus ou cozidos apenas em água. Sobras de almoço temperadas, molhos de tomate caseiros com cebola ou carnes marinadas estão fora de cogitação. Se quiser dar sabor à comida do seu cão, use ervas seguras como orégano, manjericão ou salsinha, mas mantenha o alho e a cebola longe do pote.

Chocolate e Doces: O Risco Doce e Fatal

Pode parecer óbvio, mas o chocolate continua sendo uma das principais causas de intoxicação em cães, especialmente em épocas festivas. O chocolate contém teobromina, uma substância que os cães metabolizam muito lentamente. Ela atua como um estimulante cardíaco e do sistema nervoso central. Quanto mais escuro e amargo o chocolate, maior a concentração de teobromina e maior o perigo.

Além do chocolate, doces em geral, pudins e sobremesas lácteas que habitam nossa geladeira são nocivos. O excesso de açúcar predispõe a diabetes e problemas dentários, mas o risco imediato vem dos adoçantes artificiais, como o Xilitol, mencionado anteriormente. Doces dietéticos para humanos podem ser letais para cães.

Se você quer mimar seu cão com algo “doce”, recorra às frutas permitidas como a banana ou a maçã. A fisiologia canina não está preparada para lidar com açúcar refinado ou cacau. Mantenha as sobremesas nas prateleiras mais altas da geladeira e garanta que as lixeiras da cozinha estejam sempre bem fechadas e seguras contra fuçadores curiosos.


Comparativo: O Que Escolher?

Para te ajudar a visualizar melhor as escolhas, preparei este quadro comparativo entre o petisco natural da sua geladeira e as opções comerciais.

CaracterísticaPetisco Natural (Cenoura/Maçã)Biscoito Industrializado ComumOsso de Couro (Rawhide)
Ingredientes100% natural, único ingrediente.Farinhas, corantes, conservantes, palatabilizantes.Couro bovino processado com cal e químicos.
Valor NutricionalRico em vitaminas, fibras e água.Baixo valor biológico, calorias vazias.Quase nulo, risco de contaminação química.
DigestibilidadeAlta (se preparado corretamente).Média (pode conter glúten/milho transgênico).Muito Baixa (risco de bloqueio intestinal).
CustoBaixo (disponível na compra do mês).Médio/Alto (pacotes pequenos são caros).Médio.
Benefício ExtraHidratação e limpeza dental mecânica.Apenas sabor momentâneo.Satisfaz a mastigação, mas com riscos de engasgo.

Ao olhar para a sua geladeira agora, espero que você veja mais do que apenas comida para humanos. Você tem em mãos uma farmácia natural e uma loja de brinquedos comestíveis. Use esses recursos com sabedoria, moderação e amor, e você verá a saúde do seu pet florescer a cada mordida crocante de cenoura ou lambida refrescante de melancia.

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