A importância da Taurina para os gatos
Se você observa seu gato dormindo no sofá, talvez veja apenas uma bolinha de pelos fofa e tranquila. Mas, biologicamente falando, o que você tem em casa é um predador de alta performance, uma máquina carnívora projetada pela natureza para caçar. E o combustível essencial que mantém o motor dessa máquina funcionando perfeitamente é uma pequena molécula chamada taurina. Diferente de nós ou dos cães, o organismo do seu felino não aceita negociações quando o assunto é esse nutriente. A falta dele não é apenas um detalhe nutricional; é uma falha sistêmica que pode desligar funções vitais de forma silenciosa e, muitas vezes, irreversível.
Como veterinário, vejo muitos tutores preocupados com a marca da ração ou com o sabor do patê, mas poucos entendem a química vital que acontece dentro do pote de comida. A taurina não é uma vitamina opcional, nem um suplemento para deixar o pelo bonito. Ela é o alicerce da saúde cardíaca, a guardiã da visão noturna lendária dos gatos e o componente chave para que filhotes nasçam saudáveis. Entender a importância desse aminoácido é o primeiro passo para garantir que seu companheiro viva uma vida longa, ativa e longe de emergências médicas evitáveis.
Neste artigo, vamos mergulhar na biologia do seu gato de uma forma prática e direta. Você vai entender por que a evolução fez do seu pet um dependente químico de carne fresca, como identificar se a dieta atual dele está fornecendo o que ele precisa e quais são os riscos reais de negligenciar esse detalhe microscópico. Prepare-se para olhar para o prato de comida do seu gato com outros olhos, pois o que está ali dentro define literalmente as batidas do coração dele.
O que é a Taurina e por que seu gato precisa dela?
A diferença biológica entre cães e gatos
A grande confusão começa quando tentamos comparar a nutrição de cães e gatos. Cães, assim como os humanos, são onívoros facultativos com uma capacidade metabólica incrível: o fígado deles consegue fabricar taurina a partir de outros aminoácidos, como a metionina e a cisteína. Isso significa que, se um cachorro comer uma dieta com proteínas vegetais ou carne de qualidade inferior, o corpo dele muitas vezes consegue “se virar” e sintetizar o que falta para manter o coração funcionando. O organismo canino possui as enzimas necessárias para essa conversão química interna, garantindo uma certa flexibilidade alimentar.
O gato, por outro lado, trilhou um caminho evolutivo diferente. Como carnívoro estrito, a natureza “assumiu” que ele sempre comeria presas ricas em taurina, como ratos e pássaros. Por causa dessa disponibilidade constante na dieta ancestral, o fígado dos felinos perdeu a capacidade de produzir taurina em quantidades suficientes. Eles possuem uma atividade muito baixa da enzima necessária para essa síntese, a cisteína dioxigenase. Portanto, o que para o cão é um nutriente que pode ser fabricado em casa, para o gato é um recurso externo essencial que precisa vir pronto da alimentação, todos os dias.
Essa distinção é o que define a “carnivoria obrigatória”. Não é uma preferência de paladar, é uma exigência bioquímica. Se você privar um gato de taurina pronta, o corpo dele não tem um plano B. Ele não consegue converter outros nutrientes para suprir essa falta, e os estoques corporais começam a se esgotar rapidamente. É por isso que tratar a alimentação de um gato como se fosse a de um cão pequeno é um erro que, na clínica veterinária, vemos custar muito caro à saúde do animal.
Um aminoácido “livre”: O que isso significa?
Quando falamos de aminoácidos, geralmente pensamos neles como os tijolinhos que constroem as proteínas, como os músculos e a pele. A taurina, no entanto, é um rebelde nesse universo. Ela é um beta-aminoácido que não se liga a outros para formar proteínas estruturais. Em vez disso, ela circula livremente pelos tecidos e fluidos corporais, dissolvida no interior das células. Você encontra taurina “nadando” em altas concentrações no fluido celular do coração, na retina, nos leucócitos e no sistema nervoso central.
Essa característica de ser um aminoácido livre permite que a taurina desempenhe funções reguladoras vitais. Ela atua como um regulador osmótico, ajudando a controlar a entrada e saída de água e sais minerais (como potássio, sódio, cálcio e magnésio) das células. Imagine que cada célula do corpo do seu gato é uma pequena bateria; a taurina ajuda a manter a carga elétrica correta e o volume dessa bateria estável. Sem ela, o equilíbrio eletrolítico se perde e a função celular entra em colapso.
Além dessa função de “gerente de tráfego” celular, a taurina livre atua como um potente antioxidante e agente desintoxicante. Ela se liga a substâncias nocivas e ácidos biliares para serem excretados, protegendo as células contra o estresse oxidativo. Essa liberdade química é o que a torna tão versátil e, ao mesmo tempo, tão crítica. Como ela não está “presa” em uma estrutura muscular fixa, ela é constantemente excretada e metabolizada, exigindo uma reposição contínua através da dieta para manter os níveis ideais nesses fluidos vitais.
Por que a produção interna não é suficiente?
Você pode se perguntar por que a evolução deixaria os gatos com essa “falha” de fabricação. A resposta está na eficiência. Produzir taurina internamente custa energia e recursos metabólicos. Como os ancestrais dos gatos domésticos tinham uma dieta composta quase 100% de carne crua recém-abatida, que é riquíssima em taurina, o corpo deles “desligou” a fábrica interna para economizar energia, já que o suprimento externo era garantido. O problema surge apenas quando nós, humanos, intervimos e mudamos essa dieta.
Além da baixa produção enzimática, os gatos têm outra peculiaridade: eles perdem taurina constantemente. O sistema digestivo dos felinos utiliza a taurina exclusivamente para conjugar os ácidos biliares, que são essenciais para a digestão de gorduras. Outros mamíferos podem usar glicina para essa função se a taurina estiver em falta, mas o gato não tem essa flexibilidade. Ele usa taurina obrigatoriamente, e grande parte dessa taurina conjugada é perdida nas fezes, especialmente se a dieta for rica em fibras ou proteínas de baixa digestibilidade.
Isso cria um cenário de “tempestade perfeita” para a deficiência. De um lado, a entrada é restrita porque o corpo não fabrica; do outro, a saída é alta e obrigatória pelo processo digestivo. É uma balança delicada. Qualquer alteração na qualidade da proteína ingerida ou qualquer problema intestinal que aumente a perda de bile pode levar a um déficit rápido. Por isso, a margem de segurança na nutrição felina é estreita e exige atenção constante do tutor.
Os Três Pilares da Saúde Felina: Coração, Olhos e Reprodução
O Coração: Prevenindo a Cardiomiopatia Dilatada (DCM)
O coração do seu gato é um músculo incansável que depende quimicamente da taurina para bater com força e ritmo. A concentração de taurina no tecido cardíaco é altíssima porque ela modula a disponibilidade de cálcio para as células musculares. O cálcio é o gatilho da contração muscular. Sem taurina suficiente para regular esses canais de cálcio, o músculo cardíaco perde sua capacidade de contrair com vigor. Ele se torna fraco, flácido e ineficiente, incapaz de bombear o sangue adequadamente para o resto do corpo.
Essa condição é conhecida como Cardiomiopatia Dilatada (DCM). Com o músculo enfraquecido, o coração tenta compensar aumentando de tamanho para comportar mais sangue, as câmaras cardíacas se dilatam e as paredes ficam finas, como um balão que foi esticado demais. O resultado é um coração grande, porém fraco. O sangue começa a ficar estagnado, o que pode levar à formação de coágulos, acúmulo de líquido nos pulmões e insuficiência cardíaca congestiva. O gato pode apresentar cansaço fácil, respiração ofegante e perda de apetite.
A boa notícia histórica é que, após a descoberta dessa relação na década de 1980, as rações comerciais passaram a ser suplementadas, e a DCM por falta de taurina tornou-se rara em gatos que comem ração de boa qualidade. No entanto, ela ainda é um risco real para gatos alimentados com comida caseira desbalanceada, ração de cachorro ou dietas veganas. O aspecto mais assustador da DCM é que ela pode ser silenciosa até atingir um ponto crítico, onde o gato entra em emergência respiratória. A suplementação e correção da dieta podem reverter o quadro se descoberto a tempo, mas a prevenção é, sem dúvida, o melhor remédio.
Os Olhos: O risco silencioso da cegueira irreversível
Se a DCM assusta pelo risco de vida, a degeneração retiniana assusta pela irreversibilidade. A retina do gato, aquela tela no fundo do olho que capta a luz e forma a imagem, contém uma das maiores concentrações de taurina do corpo. Ela é essencial para a saúde dos fotorreceptores, as células que permitem ao seu gato enxergar tão bem no escuro. A deficiência de taurina causa uma alteração estrutural nessas células, levando à sua morte progressiva.
Essa condição é chamada de Degeneração Central da Retina Felina (FCRD). O processo começa no centro da retina e se expande para a periferia. O problema é que o gato não vai te avisar que a visão está ficando embaçada. Eles compensam muito bem a perda visual usando a audição e os bigodes, então você só percebe quando o animal começa a esbarrar em móveis ou fica inseguro para pular. Clinicamente, ao examinarmos o fundo do olho, vemos lesões hiper-reflexivas clássicas, mas, nesse estágio, o dano já está feito.
Diferente do coração, que pode recuperar sua função com o tratamento, as células da retina, uma vez mortas, não se regeneram. A cegueira causada pela falta de taurina é permanente. Isso é trágico porque é 100% prevenível. Imagine condenar um caçador visual nato à escuridão apenas por uma falha nutricional. Garantir o aporte de taurina é garantir que seu gato continue sendo o mestre da observação que ele nasceu para ser, capaz de detectar o menor movimento de um inseto do outro lado da sala.
Reprodução e Desenvolvimento: O impacto em gatas e filhotes
A importância da taurina vai além do indivíduo; ela afeta a perpetuação da espécie. Para gatas em idade reprodutiva, níveis adequados de taurina são obrigatórios para uma gestação segura. A deficiência desse aminoácido pode levar a reabsorção fetal, abortos espontâneos ou ao nascimento de ninhadas muito pequenas e fracas. O corpo da mãe, na tentativa de sobreviver, pode interromper a gestação se perceber que não há recursos nutricionais suficientes para formar novos organismos.
Para os filhotes que conseguem nascer, a falta de taurina herdada da mãe ou a falta dela no leite materno gera consequências devastadoras no desenvolvimento. Esses gatinhos podem apresentar “síndrome do gatinho nadador”, atraso no crescimento ósseo e muscular, e problemas neurológicos. O sistema nervoso central em formação é ávido por taurina. Sem ela, a maturação do cérebro e a coordenação motora ficam comprometidas, gerando animais com sequelas para o resto da vida.
Além disso, a imunidade dos filhotes depende desse nutriente. A taurina protege os glóbulos brancos contra a destruição oxidativa durante o combate a infecções. Filhotes deficientes são mais suscetíveis a vírus e bactérias comuns, tendo uma taxa de mortalidade neonatal muito maior. Portanto, se você planeja que sua gata tenha filhotes, ou se resgatou uma gata prenha, a nutrição rica em taurina deixa de ser apenas uma manutenção de saúde e passa a ser uma questão de sobrevivência para a próxima geração.
Fontes Naturais vs. Suplementação: Onde encontrar?
A caça na natureza: O padrão ouro
Para entender a dieta ideal, precisamos olhar para o que o gato comeria sem a nossa interferência. Na natureza, um felino caça pequenos roedores, aves e, ocasionalmente, répteis ou insetos. Um rato, por exemplo, é uma “cápsula” nutricional perfeita para um gato. A carne muscular do rato, seu coração e seu cérebro são carregados de taurina. Ao devorar a presa inteira, o gato ingere quantidades massivas desse aminoácido em sua forma mais biodisponível, ou seja, pronta para ser absorvida e utilizada.
A concentração de taurina é maior nos tecidos que têm alta atividade metabólica. O coração da presa é a fonte mais rica, seguido pelos músculos das pernas (carne escura) e cérebro. Na natureza, não existe desperdício; o gato ingere tudo cru. Isso é crucial porque a taurina é solúvel em água e sensível a certos tipos de processamento. A dieta natural não passa por cozimento, extrusão ou armazenamento prolongado, mantendo a integridade química do nutriente intacta até o momento da ingestão.
Claro, não estou sugerindo que você solte ratos na sua sala para alimentar seu gato. O risco de parasitas e doenças infecciosas na caça urbana é alto. Mas entender esse “padrão ouro” nos ajuda a escolher os alimentos domésticos que mais se aproximam dessa realidade bioquímica. O objetivo da nutrição moderna é mimetizar a composição química do rato, usando fontes seguras e controladas de proteína animal.
Vísceras e carnes escuras: As melhores opções domésticas
Se você opta por oferecer alimentação natural (seja crua ou cozida) ou quer apenas dar um petisco saudável, saber escolher o corte da carne é fundamental. Nem toda carne é igual. O peito de frango, por exemplo, é uma carne branca com menos taurina do que a coxa ou a sobrecoxa de frango (carnes escuras). Isso ocorre porque os músculos de “endurance”, que trabalham mais, armazenam mais taurina. O coração de boi e o coração de frango são as “superfoods” nesse quesito, sendo as fontes mais concentradas que você encontra facilmente no açougue.
Fígado e pulmão também contêm taurina, mas em quantidades menores que o coração. Peixes e frutos do mar, como mariscos e carne escura de atum, são excelentes fontes, muitas vezes até mais ricas que as carnes de aves. No entanto, o peixe deve ser oferecido com cautela devido a outros fatores, como metais pesados e desequilíbrios minerais se for a base única da dieta. O ideal é variar as fontes proteicas, priorizando sempre carnes musculares escuras e coração.
Para quem oferece alimentação natural, a inclusão de coração na receita é praticamente obrigatória para atingir os níveis mínimos sem depender excessivamente de pós sintéticos. É uma forma biológica e saborosa de garantir a saúde do seu paciente peludo. Lembre-se apenas de que a carne deve ser de procedência segura e, se for servida crua, deve passar por congelamento profilático para evitar parasitas, seguindo sempre a orientação de um nutricionista veterinário.
A questão do processamento térmico
Aqui reside um dos maiores desafios da indústria de rações e da alimentação caseira: o calor. A taurina é um aminoácido que se dissolve muito bem na água. Quando você cozinha uma carne em água fervente, grande parte da taurina sai do tecido muscular e fica no caldo. Se você joga a água do cozimento fora, você está jogando fora a parte mais importante do nutriente. Por isso, ao cozinhar para gatos, o caldo deve ser sempre aproveitado e misturado à comida, ou o cozimento deve ser feito no vapor para minimizar a perda.
Além da lixiviação (perda na água), existe a reação de Maillard. Sabe aquela corzinha marrom dourada deliciosa da carne assada? Aquilo é a reação de Maillard, uma interação entre aminoácidos e açúcares sob calor. Infelizmente, essa reação pode tornar a taurina menos disponível para absorção ou destruí-la parcialmente. O processo de extrusão das rações secas, que envolve altas temperaturas e pressão, destrói uma parte significativa da taurina natural dos ingredientes.
Por essa razão, os fabricantes de ração de boa qualidade adicionam taurina sintética ao final do processo ou em quantidades excedentes na mistura inicial, para garantir que, após todas as perdas industriais, o produto final no saco ainda tenha o nível mínimo necessário. Na alimentação caseira cozida, o cuidado deve ser redobrado. Cozinhar demais a carne ou descartar os fluidos pode transformar uma refeição aparentemente saudável em uma dieta deficiente a longo prazo.
O Perigo das Dietas “Modernas” e Caseiras
O mito do gato vegano: Um risco fatal
Vivemos uma era onde o veganismo e o vegetarianismo crescem entre os humanos por razões éticas e de saúde. Respeito profundamente essas escolhas para você, mas tentar impor essa filosofia ao seu gato é um ato de crueldade biológica. Não existe, sob nenhuma hipótese científica, um gato vegano saudável sem uma suplementação sintética pesadíssima e arriscada. Plantas não contêm taurina. Ponto final. Legumes, verduras, grãos e frutas têm zero taurina.
Ao alimentar um gato com uma dieta baseada em vegetais, você está cortando 100% do suprimento desse aminoácido vital. O organismo dele vai consumir as reservas próprias rapidamente e os sinais de falência cardíaca e cegueira aparecerão em questão de meses. Além da taurina, dietas vegetais costumam ter o pH inadequado, favorecendo cálculos urinários, e carecem de vitamina A pré-formada e ácido araquidônico, outros nutrientes que só existem na carne e que o gato precisa.
Existem rações veganas no mercado que adicionam taurina sintética de laboratório. Teoricamente, elas suprem a necessidade química. Mas, na prática clínica, vejo que a biodisponibilidade e a interação com outros nutrientes vegetais (como o excesso de fibras e fitatos) podem prejudicar a absorção. O gato é um carnívoro. Sua dentição, seu intestino curto e suas enzimas foram feitos para processar proteína animal. Ir contra milhões de anos de evolução é uma aposta onde quem paga a conta é a saúde do seu pet.
“Posso dar ração de cachorro para meu gato?”
Essa é uma pergunta clássica no consultório. Às vezes, o tutor tem as duas espécies em casa e, na pressa ou por economia, acaba servindo a ração do cão para o gato. Eventualmente, como um “lanchinho” roubado, não há problema grave. O perigo mora na rotina. A ração de cachorro é formulada para um onívoro que fabrica sua própria taurina. Portanto, os níveis de taurina adicionados na ração canina são muito baixos ou inexistentes, dependendo da formulação.
Além disso, a ração canina geralmente tem menos proteína total e menos gordura do que a felina. Se o seu gato comer ração de cachorro todos os dias, ele estará em um déficit crônico de taurina. É uma deficiência silenciosa. O gato pode parecer bem por meses, mas internamente seu músculo cardíaco está enfraquecendo dia após dia. Quando os sintomas aparecem, o dano muitas vezes já é grave.
Outro ponto é a vitamina A. Cães convertem betacaroteno de plantas em vitamina A; gatos não. A ração de cachorro conta com essa conversão e põe menos vitamina A pronta. Ou seja, ao dar comida de cão para gato, você está criando múltiplas deficiências nutricionais simultâneas. Cada espécie tem sua exigência. A embalagem não é apenas marketing; é uma formulação bioquímica específica. Respeite a biologia do seu gato e mantenha o pote dele longe da comida do Rex.
Alimentação natural sem orientação: Onde os tutores erram
A Alimentação Natural (AN) está em alta e eu, como veterinário, adoro ver animais comendo comida de verdade, fresca e úmida. O problema surge quando o tutor decide fazer a dieta por conta própria, pegando receitas da internet ou dando apenas “peito de frango com arroz”. Isso não é alimentação natural; é um desastre nutricional. Peito de frango cozido sozinho é pobre em taurina, pobre em cálcio e pobre em vitaminas.
O erro mais comum é achar que “dar carne” é suficiente. Na natureza, o gato come ossos, órgãos, glândulas e sangue. Só a carne muscular não fecha a conta da taurina e desequilibra a relação cálcio/fósforo. Muitos tutores cozinham a carne excessivamente e jogam a água fora, perdendo a pouca taurina que havia ali. Outros usam cortes muito magros ou focam em carboidratos (arroz, batata) que o gato mal precisa, diluindo a ingestão de proteína.
Se você quer tirar seu gato da ração seca, ótimo! Mas faça isso com a prescrição de um zootecnista ou veterinário nutricionista. Eles vão calcular a quantidade exata de coração, fígado e carne muscular, e prescreverão um suplemento mineral e vitamínico (que geralmente inclui taurina extra) para garantir que nada falte. AN sem suplementação e balança de precisão é um convite para problemas de saúde, incluindo a temida deficiência de taurina.
Como identificar e tratar a deficiência de Taurina
Sinais sutis que antecedem o desastre
O aspecto mais traiçoeiro da deficiência de taurina é que ela é lenta. Não é como uma intoxicação onde o animal passa mal imediatamente. O gato pode levar meses ou até anos comendo uma dieta pobre para começar a mostrar sinais clínicos. E os primeiros sinais são inespecíficos. Você pode notar que o pelo ficou opaco, que a pele está descamando ou que ele está um pouco mais quieto que o normal, dormindo mais e brincando menos.
Outro sinal sutil é a digestão ineficiente. Como a taurina é necessária para a bile, a falta dela pode causar fezes amolecidas ou com gordura visível, já que o intestino não está absorvendo bem os lipídios. O gato pode comer bem, mas perder peso lentamente. Problemas dentários e gengivites recorrentes também podem estar associados a uma imunidade baixa causada pela carência nutricional geral.
A atenção do tutor aos detalhes é vital. Se seu gato esbarra nas coisas quando a luz está baixa, se ele para no meio de uma brincadeira ofegante com a boca aberta (o que nunca é normal para um gato em repouso), ou se ele parece “triste”, não assuma que é apenas velhice. Esses podem ser os gritos de socorro de um organismo com a bateria química arriada. A detecção precoce nesses estágios sutis é o que separa um tratamento simples de uma internação na UTI.
O diagnóstico veterinário: Exames de sangue e imagem
Quando suspeitamos de deficiência de taurina, a investigação clínica precisa ser minuciosa. O exame físico comum pode revelar um sopro cardíaco ou alterações no ritmo do coração, o que já acende um alerta vermelho. Para confirmar a deficiência, podemos solicitar a dosagem de taurina no sangue (plasma) ou no sangue total. No entanto, esses exames são caros e nem sempre disponíveis em todos os laboratórios rapidamente.
Muitas vezes, diagnosticamos pela consequência. Um ecocardiograma é o exame de ouro para ver o coração. Se vemos um ventrículo esquerdo dilatado e com paredes finas, com baixa contratilidade, a suspeita de deficiência de taurina (especialmente se o histórico alimentar for ruim) é quase uma certeza. Para os olhos, um exame de fundo de olho (oftalmoscopia) realizado por um especialista pode revelar as lesões na retina características da degeneração.
Em muitos casos, se o histórico alimentar aponta para uma dieta de risco (ração de cachorro, comida caseira sem suplemento, dieta vegana), nós nem esperamos o resultado da dosagem de taurina. Iniciamos a suplementação imediatamente e ajustamos a dieta. Se o coração do animal melhorar após algumas semanas de suplementação, temos a confirmação terapêutica do diagnóstico. O tempo é tecido cardíaco e visão, então agimos rápido.
Reversibilidade: O que dá para curar e o que é permanente?
Aqui é onde precisamos ter uma conversa franca. A deficiência de taurina deixa cicatrizes diferentes dependendo de onde ela ataca. No caso do coração (DCM), se o diagnóstico for feito antes que o animal entre em falência cardíaca total, o prognóstico é favorável. Com a suplementação correta e a mudança da dieta, o músculo cardíaco pode recuperar grande parte da sua função e força. O gato pode voltar a ter uma vida normal, embora precise de acompanhamento cardiológico.
Já para a visão, a notícia é menos animadora. As células fotorreceptoras da retina, uma vez degeneradas, não voltam. Se o gato perdeu 30% da visão, a suplementação de taurina vai impedir que ele perca os outros 70%, mas não trará de volta o que foi perdido. Estabilizar o quadro é a meta. Por isso a prevenção é tão enfática nesse tópico; ninguém quer que seu gato fique cego por algo que poderia ser resolvido com um bife de coração ou uma cápsula de suplemento.
Na reprodução, os problemas costumam ser resolvidos para as gestações futuras. Uma gata que teve problemas pode ter ninhadas saudáveis depois, desde que seus níveis de taurina sejam normalizados antes da próxima cobertura. Para os filhotes que nasceram com sequelas de desenvolvimento, a fisioterapia e cuidados de suporte podem ajudar, mas algumas deficiências esqueléticas ou neurológicas podem ser permanentes. O segredo, como sempre na medicina veterinária, é não pagar para ver.
Comparativo: As Fontes de Alimentação
Para te ajudar a visualizar onde mora o perigo e onde mora a solução, preparei este quadro comparativo simples. Analise onde a dieta do seu gato se encaixa.
| Característica | Ração Super Premium (Gatos) / AN Balanceada | Ração de Cachorro (Standard ou Premium) | Comida Caseira (Sem suplementação/Restos) |
| Teor de Taurina | Alto e Adequado. Adicionado sinteticamente ou via carnes ricas para cobrir perdas de processo. | Baixo ou Inexistente. Baseado na síntese natural canina, insuficiente para felinos. | Variável e Risco Alto. Cozimento destrói a taurina e ingredientes podem ser pobres no nutriente. |
| Origem da Proteína | Maioria de origem animal de alta digestibilidade. | Mista (animal e vegetal), muitas vezes insuficiente para carnívoros estritos. | Geralmente apenas carne muscular (peito de frango), faltando vísceras e órgãos. |
| Absorção (Biodisponibilidade) | Otimizada. A fórmula considera a perda fecal e garante absorção líquida positiva. | Baixa para gatos. Excesso de fibras ou carboidratos pode “roubar” a taurina nas fezes. | Incerta. A falta de equilíbrio mineral pode prejudicar a absorção da taurina presente. |
| Risco de Doenças (DCM/Cegueira) | Mínimo. Só ocorre em casos de falha industrial rara ou doença genética de absorção. | Alto. O uso contínuo levará à deficiência crônica quase certamente. | Muito Alto. É a principal causa de deficiência vista na clínica hoje em dia. |
Você tem o poder de controlar a saúde do seu gato a cada refeição. A taurina não é algo que você vê, cheira ou toca, mas é a força invisível que mantém o coração do seu pequeno tigre batendo forte. Seja através de uma ração de excelente qualidade, seja através de uma alimentação natural prescrita e suplementada, garantir esse aminoácido é a maior prova de amor que você pode dar a ele. Não espere os sintomas aparecerem. Revise a dieta do seu gato hoje mesmo e garanta que ele tenha combustível de sobra para todas as suas caçadas, reais ou imaginárias, pela casa.


